Registro, tempo, deformação - Michel Butor

"J'ai devant les yeux cette première page datée du jeudi 1er mai, que j'ai écrite tout entière à la lumière de ce jour finissant, voici trois mois, cette page qui se trouvait tout en bas de la pile qui s'est amassée lentement devant moi depuis ce temps-là, et qui va s1accroître dans quelques instants de cette autre page, que je raye de mots maintenant; et je déchiffre cette phrase dont j'ai retrouvé les cendres sur cette plage quand j'ai rouvert mes paupières, ces cendres que je  retrouve maintenant.
(...)
Le cordon de phrases qui se love dans cette pile et qui me relie directement à ce moment du 1er mai où j'ai commencé à le tresser, ce cordon de phrases est un fil d'Ariane parce que je suis dans un labyrinthe, parce que j'écris pour m'y retrouver, toutes ces lignes étant les marques dont je jalonne les trajets déjà reconnus, le labyrinthe de mes jours à Bleston, incomparablement plus déroutant que le palais de Crète, puisqu'il se déforme à mesure que je l'explore."

Butor, Michel. L'emploi du temps. Paris: Union Générale d'Éditions (col. 10/18), 1966, p. 273-4.


[Tenho diante dos olhos esta primeira página datada da quinta-feira primeiro de maio, que escrevi inteira à luz deste dia findando, há três meses, esta página que se encontrava em baixo da pilha que se acumulou lentamente diante de mim desde aquela época e que receberá dentro de instantes esta outra página, que cubro de palavras agora; e leio esta frase da qual achei as cinzas nesta praia quando reabri minhas pálpebras, cinzas que reencontro agora.
(...)
O cordão de frases que se enovela nesta pilha e que me liga diretamente a este momento do primeiro de maio quando comecei a tecê-lo, este cordão de frases é um fio de Ariane já que estou num labirinto, porque escrevo para me localizar ali, todas estas linhas são as marcas das quais eu acompanho os trajetos já reconhecidos, o labirinto de meus dias em Bleston, incomparavelmente mais confuso que o palácio de Creta, pois se deforma à medida em que o exploro.]

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