O lugar, logo antes da dança - Ushio Amagatsu



"(...) 
Ora, um velho amigo pintor me dizia que não se atravessa uma ponte para chegar à margem oposta, mas para colocar-se face ao rio.
De fato, caminhar à margem de um rio é somente seguir seu curso, ou tomá-lo em sentido contrário. Quando, para fitá-lo, nos viramos para ele, descobrimos tão somente ‘seu perfil’. Se subimos na ponte, entretanto, e nos viramos para o lado, colocamo-nos frente ao rio.
Um cara-a-cara, em suma, mas o que vemos? Uma água densa e massiva que corre, incessantemente cambiante. E como para responder a essa densidade, o ar, embora mais sutil, e ainda por cima invisível, nada mais é do que fluxo, sempre mutante. Coloquem-se face às turbulências destes elementos de densidade diferente, face a esta fuga de ar e água, e a frontalidade remeterá à cena do teatro, tal como é percebido pelo espectador em sua poltrona: esta perspectiva segundo a qual ele percebe, na duração, as oscilações, todas virtuais, que se sucedem no palco.
O teatro é como essa ponte, como esse lugar que nos coloca frente ao rio. Ele traz ao alcance do olhar o fluxo sempre cambiante do Espaço e do Tempo. (...)"
 

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